Estes candidatos não me representam

Após 13 anos de pura corrupção, os parlamentares teimam em fingir que o país está às mil maravilhas e que podemos confiar na política brasileira. Ledo engano!

Por Fausto Freire

Enquanto o Brasil real amarga 14 milhões de desempregados, em Brasília, os políticos discutem o financiamento das eleições de 2018: o “Distritão”, o “Distritão misto”, a “cláusula de barreira” e tantos outros temas voltados para seus próprios interesses e que nada têm a ver com as pessoas comuns. Já o cidadão, que trabalha e que, com seu suor, sustenta o País, tem suas preocupações voltadas para a segurança pública, para o atendimento básico de saúde e para as escolas, onde seus filhos deveriam receber uma educação que lhes abrisse oportunidade para uma vida melhor.

O brasileiro está atento a dois tipos de temas: os que possam ameaçar a sua vida, já bastante atormentada, e os que possam trazer um vislumbre de esperança. Diante desta disjuntiva, abre-se a janela de oportunidades para os prestidigitadores do desespero alheio, os charlatães das promessas delirantes, os lobos travestidos de ovelhas. O discurso da moda é: “Vamos acabar com a corrupção”; “nós, cidadãos de bem, vamos impor a ética e a moral na vida pública”; “conosco, tudo vai ser diferente”… será?

Desde o início da gestão de Dilma Rousseff, pautada por uma política econômica insana e uma gestão desastrosa, coroada por vários bilhões de dólares perdidos nos esgotos da corrupção, o Brasil real mostrou sinais crescentes de declínio. Fábricas fecharam as portas, estabelecimentos comerciais e de serviços em geral, sufocados por encargos esmagadores, concorrência desleal de produtos estrangeiros e nocauteados pelo fraco desempenho das vendas, definharam até a falência.

Mas o Brasil fictício, o Brasil das promessas impossíveis, dos profissionais de comícios e palanques, dos discursos inflamados, parece cego aos apelos provenientes das fábricas, escolas, hospitais, estradas, monumentos, preservação ambiental e segurança pública, tudo em ruínas.

Nos últimos três anos, os brasileiros participaram de um macabro festival de alegações de corrupção. As empresas que floresceram durante os anos dos governos do Partido dos Trabalhadores e que se tornaram as mais ricas de seus segmentos em escala global, graças aos favores da administração, revelaram a verdadeira razão para o seu sucesso: propina, suborno e corrupção junto à classe política.

A  cidade do Rio de Janeiro é o retrato vivo da falência do Estado. Transformada em uma nova Caracas, a cidade mais perigosa do mundo, ou talvez numa Al-Fallujah, terra sem lei e sem dono. O Estado já não consegue sequer pagar os salários dos policiais. A violência transbordou e ninguém está ao abrigo dos criminosos. Para além do drama carioca, as fronteiras do Brasil com Colômbia, Venezuela, Bolívia, Peru e Paraguai, de onde escoam o contrabando de drogas e armas, reduzem a vigilância devido à falta de recursos para manter a estrutura de monitoramento.

O  governo anuncia novos cortes orçamentais todos os dias, afetando serviços essenciais, como saúde, educação, alimentos, investimentos em pesquisas, segurança pública, preservação do meio ambiente e das terras indígenas, creches para crianças, medicamentos para idosos, para vítimas do câncer e da Aids.

O  colapso do Estado é notado em todos os lugares, mas os políticos estão mais preocupados com seus próprios e mesquinhos problemas, com  a  manutenção de seus privilégios e com as denúncias da Polícia Federal e da Procuradoria Geral. Seu grande esforço é frear a operação Lava Jato e tantas outras, derivadas dela. A mídia é, frequentemente, apresentada como a vilã, e as autoridades encarregadas do cumprimento da Lei, apontadas como parciais, movidas por propósitos inconfessáveis, ou agindo em desrespeito aos princípios democráticos.

Ano que vem, os brasileiros irão obrigatoriamente às urnas… no mesmo ano que  a Constituição completará três décadas de sua promulgação. Aos 30 anos, nossa Carta Magna mostra sinais de envelhecimento precoce e inequívocas marcas de fadiga do material. O legislador, ao redigi-la, esqueceu alguns detalhes básicos que hoje revelam sua magnitude. Uma das falhas mais óbvias é o divórcio entre as boas intenções promulgadas e a fonte pagadora das benesses. É fácil prometer a universalização da saúde pública e da educação, sem calcular o tamanho da conta a pagar. É bonito assegurar o direito da criança e do adolescente sem assumir o ônus de educá-los, para que não se tornem inimigos da sociedade injusta que o marginalizou.

É evidente que precisamos revisar muitos pontos desta jovem velha senhora. Nossa Constituição é prolixa, adjetiva, confusa e surrealista. Talvez, este último atributo seja o que ela tem de mais autenticamente brasileiro e antropofágico. Tristes trópicos… É hora de revisarmos se queremos continuar sendo tratados com a ironia de De Gaulle: “O Brasil não é um país sério! “.

Ao olhar pelo prisma do PIB, somos a oitava economia do mundo; a comparar pela ótica do desenvolvimento humano, publicado em 2016 pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), estamos na 75ª posição, com alta probabilidade de deslizarmos ainda mais para baixo. Pela mira da violência, matamos mais que países em guerra.

As agências internacionais de classificação de risco titubeiam em melhorar nossa posição no ranking dos países confiáveis. Mas isto é importante para nós? Claro que sim. Sem uma avaliação favorável, não haverá investimento robusto e confiável. Ficamos à mercê das hienas do mercado mundial, predadoras famintas que buscam assumir o controle estratégico de nossa economia para se apoderar de nossas riquezas e controlar nossas decisões.

O norte-americano, linguista, filósofo e anarquista declarado Noam Chomsky definiu, a seu modo, a postura dos brasileiros em face da situação atual: “Os brasileiros não se revoltam, mas isso não quer dizer que concordam.” Isto fica evidente pelas pesquisas de opinião, que nos mostram que a administração Temer, apesar de ingentes esforços, não consegue alcançar dois dígitos na aprovação dos  brasileiros.

No entanto, isto não se revela em manifestações de multidões. Estou convencido que muitas pessoas, como eu, não atendem aos chamados para protestar contra algumas das medidas do governo atual, por várias razões. Por um lado, para avaliar até que ponto elas seriam eficientes para devolver o País aos trilhos do desenvolvimento, com oportunidades, empregos e renda; por outro lado, as pessoas não querem servir de massa de manobra para as manifestações encabeçadas pelo Partido dos Trabalhadores et caterva, nas ridículas manifestações de “Fora Temer”.

Pelo menos 80% dos brasileiros estão conscientes de que a situação atual é decorrente dos 13 desastrosos anos do frenesi de corrupção encabeçado por Lula da Silva e sua trupe. Temer não era um opositor dos governos do PT. Ao contrário, foi um de seus principais aliados e apoiadores. Os mesmos votos que elegeram Dilma Rousseff, também elegeram Michel Temer.

Nosso principal problema não é o fato de que o País esteja acéfalo, como de fato está. Não temos uma liderança confiável para definir o caminho a seguir. Temer é um homem acuado e sem rumo, disposto a negociar tudo e qualquer coisa para permanecer no cargo e livrar-se do peso da Lei. Porém, o mais grave é que não vemos entre os candidatos postulantes algum com perfil minimamente talhado para enfrentar os desafios maiúsculos que temos pela frente.

Como poderíamos virar esta página? Criando novos partidos? Não  reelegendo nenhum dos que aí estão? Buscando candidatos “apolíticos”. Sofisma… Tudo isso é apenas mais do mesmo. Sérgio Cabral, quando iniciou sua carreira política, no Rio de Janeiro, repetia estas mesmas frases de efeito, contra a corrupção e contra a classe política. Eu, que conheci seu pai, nos tempos áureos do Pasquim, com Jaguar, Ziraldo e tantos outros jornalistas contra a ditadura, sei o quanto Sérgio Cabral, autor da biografia de Tom Jobim, teria ficado arrasado com o desfecho da carreira do filho.

Por tudo isso, esses discursos inflamados não me convencem. Não creio que o Brasil vá mudar com proclamações e boas intenções. Estou persuadido de que a mudança será lenta e só se dará pela via da educação. Mas isto também é muito vago e muito déjà vu. Vimos os CIEPS do Brizola, com projeto de Oscar Niemeyer, que também comemoram 30 anos, vimos os esforços do Darcy Ribeiro com tantos projetos inovadores e vemos, agora, o senador Cristovam Buarque, herdeiro desta bandeira redentora, como uma voz solitária que clama no deserto.

Não ponho em dúvida a verdade daqueles que pregam que só na educação haverá solução, mas precisamos tirar esta consigna do papel e iniciar esta real revolução, a longa revolução cujos resultados se estenderão pelo tempo. E não podemos cair no triunfalismo. Mesmo levando adiante o projeto educador, o esforço talvez seja inócuo, se não mexermos nas estruturas políticas que sustentam e realimentam o sistema. É preciso saber que a mola propulsora de nossa política é a corrupção.

Muitos imaginam que podemos derrotar a corrupção política focando na Praça dos Três Poderes, em Brasília. Nada mais enganoso. Brasília é a parte visível do iceberg e a Praça dos Três Poderes a ponta do iceberg. Mas as raízes estão bem fundadas no solo fértil do Brasil profundo. Suas raízes estão bem sólidas na base da pirâmide. Não estou pretendendo que o brasileiro seja intrinsecamente corrupto, mas nosso passado de dominação cruel ensinou ao povo que é melhor jogar o jogo dos poderosos. É melhor dançar conforme a música…

Uma das práticas mais antigas e arraigadas da “cultura”  da política brasileira é a da compra e venda de votos. Muitos eleitores, e não apenas dos segmentos mais desfavorecidos, convivem em perfeita harmonia com a corrupção eleitoral.

Desde o mais modesto morador das periferias pobres, aos mais endinheirados empresários, fazem da eleição um balcão de negócios. O noticiário recente colocou a descoberto os maiores empreendedores em conluio com nossos representantes políticos, deixando subentendidas as suas óbvias ramificações no Poder Judiciário.

São as promessas das telhas para cobrir o barraco, os sacos  de cimento para o piso ou para a laje, a dentadura, a camiseta, o sanduíche e pequenas ofertas miseráveis que transformam o eleitor em um corrupto. Nada mais natural que este eleitor conviva, com um certo grau de cinismo, com políticos desonestos. Não fora esta tolerância, a erradicação da corrupção na política brasileira seria tão natural como o é na política nórdica, japonesa e de outros povos onde a corrupção é apenas um fenômeno marginal.

O cidadão aprende  que seu voto é moeda de pouco valor e não uma chave para abrir horizontes. Mas vemos que a luta, no Brasil, contra a corrupção, não se assemelha à luta heroica do bombeiro contra as chamas. Enquanto o povo, principal vítima de seus efeitos, não entender o quanto ela o prejudica. Se isto é verdade, o foco da luta contra a corrupção deverá estar na base e não no topo da política, na educação e não na repressão, no exemplo e não no castigo.

Se  já concluímos que tudo começa na base, é lá que precisamos focar a nossa atenção. No Brasil, a base é o município; portanto, é no município que tudo começa. Cerca de 45% da população brasileira vive em municípios com até 100 mil habitantes. O total de municípios com esta população representa 95% dos cerca de 5.570 municípios.

Os municípios brasileiros possuem 56 mil vereadores. Destes, cerca de 24 mil vivem em municípios com até 100 mil habitantes. Não existe nenhuma explicação razoável para que estes representantes comunitários sejam profissionalizados e recebam uma remuneração fixa e mensal. Geralmente, estes vereadores não dedicam mais que 6 horas semanais aos seus municípios. E é exatamente aí que brota o gérmen da corrupção, que logo se estende a todo o sistema político do País.

Deixe sua resposta