Grupo Coisa Nossa garante samba de qualidade por quatro décadas

A banda começou a carreira na década de 80 e até hoje é sucesso nas casas de show de Brasília

Por Ruggere Borges | Fotos Matheus L. Bueno

O grupo de samba Coisa Nossa ocupa a cena musical do Distrito Federal há quase quatro décadas. A história da banda começa ainda na época de escola onde os membros da formação original se conheceram em 1979 e decidiram se reunir para participar de um concurso da escola que frequentavam. No Festival Interno do Colégio Objetivo (FICO), o grupo conseguiu a terceira colocação no evento com a apresentação de uma canção original, “Dúvida”, composta pelo Sr. Campos. O festival teve a sua edição nacional, realizada em São Paulo, e o Coisa Nossa participou por conta de sua boa classificação na edição de Brasília. Os componentes da banda optaram por levar a sério a música e até hoje o Coisa Nossa enche casas de show pela cidade. “A ideia do nome é que a gente queria fazer um som próprio, uma coisa nossa. Daí veio a ideia do nome”, conta Marcelo Sena, cantor da banda desde 1980. O cantor da Banda na primeira formação era o Laffaiete Sena, irmão do Marcelo.

O Coisa Nossa sempre cantou samba por conta das referências musicais da época com cantores como Tom Jobim. Embora, a década de 80 tenha tido a invasão do rock nacional nas rádios e no gosto popular, o samba também fazia parte do cenário por conta da Bossa Nova, o que influenciou na escolha do grupo sobre qual ritmo tocar durante a carreira profissional.

Em seus quase 40 anos de existência, a banda teve diferentes formações. O cantor Marcelo Sena e o Carlos Henrique (Kina) são os únicos da formação original que permanecem desde a época de colégio. Alguns dos membros possuem parentesco uns com os outros, o que deixa um clima familiar entre os integrantes e a sintonia é sentida pelo público durante os shows. Atualmente a banda conta com dez integrantes: Marcelo Sena (cantor), Carlos Henrique (percussão e backing vocal), Carlos Chaves (cavaquinho), Rafael Sena (percussão e vocal), Márcio Chaves (percussão e backing vocal), Júnior Morgado (violão e guitarra), Fernando César (saxofone e vocal), Dedé Batera (bateria), Eder Johnson (contrabaixo) e André Foka (percussão e backing vocal).

O Coisa Nossa já lançou um LP (discos de vinil) com canções originais, que incluem uma música autoral feita por Jorge Aragão, padrinho do grupo. Participou das coletâneas Sementes de Brasília e Ginga Brasília e lançou o CD Mistura Brasileira. O vocalista relata que a produção das mídias de suas canções foi feita a partir de recursos próprios da banda. Então, a divulgação do trabalho sempre foi feita de forma independente e com a ajuda de um público fiel desde o início, a banda garantiu sucesso no mercado musical de Brasília. “Temos fãs que estão conosco desde a época do FICO e hoje alguns já têm até netos”, afirma Marcelo.

O grupo, além dos shows nacionais, teve turnês internacionais. Uma com bastante sucesso de público foi feita na Europa em 1998. Alguns componentes da Banda Coisa Nossa realizaram shows em países como Espanha, França e Portugal e o sucesso foi tão grande que a banda foi convidada por uma faculdade de música francesa para ministrar workshops para ensinar a essência do samba aos estudantes. Marcelo Sena relembra que os integrantes foram recebidos na instituição com os alunos tocando canções e samba para o início do curso. O vocalista acredita que aderência no exterior é grande por conta de o ritmo ser algo incomum nos costumes de fora do país e que os instrumentos do samba são difíceis de tocar logo de cara. Os estrangeiros ficam maravilhados quando têm a oportunidade de estar em contato com ritmos brasileiros. “Eu elogiei quando eles tocaram para nós. Mas quando eles nos viram tocar, eles ficaram admirados. O samba é bem visto em outros países pela sua complexidade e peculiaridade, tanto para tocar, cantar, quanto para dançar. Para mim, é o ritmo mais difícil de se executar em todas as suas nuances.”

 

Cenário Musical Atual

Recentemente, o cenário musical teve uma explosão de bandas e cantores que tocam sertanejo universitário, uma possível ameaça ao samba. Mas o Coisa Nossa tira de letra essa questão tocando outras canções adaptadas ao ritmo dançante do samba para presentear os fãs que os acompanham.

Marcelo Sena – Foto de Matheus L. Bueno

O vocalista avalia que a mídia tem um papel fundamental na propagação de ritmos musicais, pois há uma supervalorização do sertanejo universitário no momento, o que dificulta que outros ritmos possam ser apreciados por uma quantidade maior de pessoas. Marcelo acredita que a junção de ritmos é uma coisa boa para a banda porque garante um alcance maior de público atendendo pedidos de fãs para que o grupo toque canções de outros artistas. “Todos os ritmos têm uma coisa boa”. Apesar do sucesso dessa mistura de arranjos, toques e canções, o vocalista defende a ideia de que a mídia deve ceder espaço para que variados ritmos tenham a oportunidade de serem apresentados a novos públicos e assim sendo, cada um escolhe o ritmo que agrada mais aos seus ouvidos.

Há uma falta de união dos sambistas para que o ritmo musical volte a ser alavancado no país. Os fãs de grupos de sambas são aqueles que já os acompanham há muito tempo atrás. Essa união viria a trazer força para o samba e renovar o público e com isso, o ritmo cairia no gosto popular novamente aproveitando que o mercado voltou a ficar bom e favorável para bandas independes da cidade.

 

Projetos

A banda tem projetos e sonhos para realizar no futuro. Marcelo Sena conta que há uma vontade por parte do grupo de produzir um DVD que revele a história do grupo desde suas raízes. A ideia é de um documentário que vai mostrar desde a escola, onde tudo começou, até os dias de hoje, além de contar com entrevistas de antigos integrantes, fãs e pessoas que foram importantes nesses quase 40 anos de carreira. O DVD também terá a banda tocando seus sucessos, mas o foco mesmo será em relatar o processo de formação do grupo e apresentar ao público aquilo que só quem acompanhou de muito perto sabe.

Um outro projeto é a criação da Escola Cultural Coisa Nossa. A ideia do planejamento é ter um espaço, como se fosse uma escola, aberto à população para atividades culturais. No local, crianças e adultos teriam aulas de música, dança e teatro para aprenderem algo interessante fora da escola e, quem sabe, descobrir novos talentos na música, pois falta incentivo por parte do governo nessa área. O vocalista vê o exercício da cultura como algo primordial para uma sociedade melhor.

Coisa Nossa no Bamboa | Foto Matheus L. Bueno

Durante os quase 40 anos de banda, o Coisa Nossa já performou com nomes ilustres do samba como Jorge Aragão, padrinho do grupo, Zé Keti, Arlindo Cruz, D. Ivone Lara, Jovelina Pérola Negra, Zeca Pagodinho, Paulinho da Viola, Jamelão, entre outros. Mumuzinho, Ferrugem, Délcio Luiz também fazem parte dos artistas acompanhados pela banda e há a vontade de fazer outra colaboração com o cantor Mumuzinho, um nome em alta no cenário musical do samba. “Ele me lembra muito quando eu comecei a carreira”.

A banda está presente em várias redes sociais como Facebook e Instagram, onde estabelece um bom contato com os seus fãs que podem usar os espaços virtuais para elogios, críticas e sugestões. Os integrantes sempre estão de olho nos comentários porque eles procuram oferecer o melhor que o grupo tem. Mais um projeto pretendido pela banda é usar os ambientes virtuais como meios de comunicação, onde dicas variadas sobre cultura, saúde, esporte e outros assuntos serão postadas para que as pessoas possam se informar, além, é claro, de acompanhar mais de perto os passos do Coisa Nossa. Nas redes sociais também é possível acompanhar a agenda de shows do grupo para se programar e curtir um samba da mais alta qualidade.

Foto: Matheus Bueno

Serviço

O Coisa Nossa se apresenta ao vivo todos os sábados na Feijuca da Bamboa. O evento acontece a partir das 11h30 na Bamboa Cozinha de Bar, localizada no Setor Hípico. E todas as quintas-feiras no Garota Carioca, localizada no SCN Quadra 03, com uma Roda de Samba 360° a partir das 18 horas.

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