O médico que não se curvou ao governador

Gutemberg Fialho acredita que o povo está entregue à própria sorte, pois o governo assumiu uma posição de opositor ao servidor, com um discurso vazio da ‘nova política’.

 

O presidente do Sindicato dos Médicos do Distrito Federal, Gutemberg Fialho, falou sobre os embates da entidade com o atual governo e as dificuldades enfrentadas pelos servidores públicos à revista Plano Brasília

Crítico do governo e um dos articuladores do movimento sindical que tem se contraposto a medidas controversas do governo em relação aos servidores públicos de carreira e à saúde pública, o sindicalista, que é pré-candidato a deputado distrital em 2018, afirma que o governo Rollemberg é que faz oposição aos servidores públicos e não o contrário.

O governador o trata como um de deus maiores antagonistas. É uma questão pessoal?

Infelizmente, o governador Rollemberg enxerga um inimigo em qualquer pessoa que divirja de suas ideias, e que aponte problemas na sua gestão. Se desse ouvido a propostas e críticas, certamente teria feito um governo melhor. Presido, há oito anos, um sindicato compromissado com os médicos, os servidores da saúde e com o serviço público. Neste período, com muita negociação e enfrentando as brigas necessárias, promovemos conquistas históricas que melhoraram a condição de emprego para médicos no serviço público e que permitiriam a recuperação do sistema de saúde pública do DF. Temos mantido relação institucional com todos os governos e foi a postura que tivemos com esse. Essa postura de “quem não me apoia é contra mim” é incompatível com a prática política, é antidemocrática e antirrepublicana.

E a sua postura em relação a Rollemberg e seu governo em que se baseia?

Rollemberg demonstra letargia, falta de prioridades, de capacidade de gestão e dedo podre na escolha de secretários, sobretudo os da pasta da Saúde. Vemos um aumento imenso de mortes evitáveis dentro dos hospitais da cidade motivados pela falta de medicamentos, materiais, profissionais e equipamentos. O caos é tanto que nas unidades de saúde faltam telefone, internet e até água. As políticas contra os cidadãos e a favor de grupos empresariais, como a tentativa de entrega de unidades de saúde a Organizações Sociais, demonstram que o governo está vago, sem gestão alguma. O povo está entregue à própria sorte, por conta de um governador que só pensa em sua reeleição e em agradar os prováveis financiadores de campanha. Essas são questões na área da Saúde, mas em outras existem muito mais motivações para eu não emprestar apoio a um governante que, há tempos, demonstra não ter condição de governar Brasília.

O governador tinha expectativas de que o senhor mantivesse o Sindicato dos Médicos fiel ao mandato dele?

Para minha surpresa, quando pediram minha expulsão do PSB, no final de 2015, justificaram infidelidade às definições da ala sindical do partido. Foi um dos motivos pelos quais decidi abandonar o partido, pois eu era filiado e não o Sindicato. A desvinculação partidária do Sindicato dos Médicos do DF é uma conquista que data de 1998 e tenho muito zelo por ela. O partido do SindMédico-DF são o médico, o servidor público e a defesa da saúde pública. O governador não tem experiência como trabalhador nem noção da relação dos sindicatos com seus filiados. Pensa que a subordinação é do sindicalizado ao líder sindical, mas é exatamente o oposto – no SindMédico é assim que agimos. Aliás, isso evidencia o caráter autoritário e nada democrático do governador. Fiz questão de denunciar ao partido essa postura.

Gutemberg Fialho | Foto Acervo do Sindimédico

O senhor levou o Sindicato dos Médicos para a oposição ou o sindicato é que o colocou lá?

Logo no início do governo Rollemberg, veio a questão dos atrasos nos pagamentos do 13º salário. Saímos de uma reunião pela manhã com solução para isso, o que evitaria a greve. Naquela mesma tarde o então secretário da Casa Civil, Hélio Doyle, anunciou o escalonamento dos salários em quatro parcelas. Quem foi para a oposição ao servidor foi o governo e não o contrário. A minha lealdade foi mantida: enquanto havia o que negociar, negociei. Mas o governo Rollemberg não honrou nenhum dos compromissos e, poucos meses depois, deixou até de conversar com os sindicatos – prometeu grupos de trabalho que nunca deram em nada. Eu não me prestei a brincar de faz de conta, enquanto as condições salariais, de trabalho e de assistência à população se desintegravam.

O secretário de Saúde, Humberto Fonseca, se queixa de que o sindicato se coloca contra qualquer decisão dele…

Não é uma posição conceitual. Descentralização administrativa e financeira e a expansão da Atenção Primária à Saúde, por exemplo, são bandeiras do SindMédico-DF e de outras categoriais da saúde há anos. Mas não da forma que o atual governo impõe. Quando nos colocamos contrários a decisões da Secretaria de Saúde, estamos lutando por aquilo que o secretário deveria fazer e não está fazendo adequadamente: cuidar da saúde da população e dos servidores da Saúde. Somos coerentes com a função do Sindicato, de defesa dos médicos e demais servidores, e buscamos um sistema de saúde que funcione, que seja efetivo para a população. Se querem apoio dos servidores, deveriam convencê-los com argumentos e lhes dar condições de trabalho, não hostilizar e demonizar, como fazem. Se fosse outro governador querendo fazer as coisas da mesma forma também seríamos contra.

Os sindicatos da Saúde impediram as Organizações Sociais, mas não conseguiram barrar o Instituto Hospital de Base. Quem está ganhando esta queda de braço?

Não é uma disputa de força. Quem perde com propostas que desestruturam o Sistema Único de Saúde é a população. Eu digo sempre e repito: o SUS é perfeito. O que é imperfeito e precisa mudar é a gestão da Secretaria de Saúde. Alterar a natureza jurídica de unidades de saúde ou entregá-las à exploração da iniciativa privada, ainda que travestida de terceiro setor, é um engodo que só serve aos interesses políticos do governador e de quem vai tirar proveito econômico da situação. O fato de não terem conseguido implantar as OSs não representa em si uma vitória dos sindicatos, mas é a comprovação de que nossa argumentação em relação a elas é verdadeira e que o governo estava equivocado. Foi a sociedade que ganhou com a rejeição das OSs e a questão do Instituto ainda vai ser resolvida na Justiça.

Como o senhor avalia a gestão do ministro Ricardo Barros, no Ministério da Saúde?

Há histórico de ministros que não têm formação em saúde, mas souberam se cercar de conhecedores da área e fizeram uma gestão decente. Não é o caso do engenheiro Ricardo Barros, que desconhecendo o funcionamento do setor tem dito e feito absurdos. Tanto no que diz quanto no que faz, Ricardo Barros ataca o Sistema Único de Saúde e os profissionais da área. A insistência na criação de “planos de saúde populares”, por exemplo, é uma demonstração da subserviência de Barros aos interesses do mercado.

Gutemberg Fialho | Foto Acervo do Sindimédico

Como o senhor avalia esse momento para o servidor público no âmbito federal?

Está havendo novo avanço do neoliberalismo, com a visão da redução do Estado. É um equívoco. Um “Estado mínimo” que não atende às necessidades da população é equivocado. Temos que adotar a visão do “Estado necessário” e desenvolver políticas estruturantes. Entre as medidas necessárias, o governo federal tem que retomar a estruturação e os investimentos no SUS de forma adequada.

Seu nome tem aparecido em pesquisas e até em composição de chapa majoritária. Qual é a sua expectativa para as eleições do ano que vem?

A única coisa que parece certa nas eleições de 2018 é que a rejeição do eleitor aos políticos de carreira e aos que votam contra os interesses da população será grande. Acredito que, no momento, minha contribuição no campo político deve ser na Câmara Legislativa, para a qual sou pré-candidato. Acho que minha militância em defesa da saúde e do serviço público me credenciam para a função. Espero que as eleições de 2018 possam levar o Distrito Federal novamente aos trilhos do desenvolvimento e, sendo eleito, quero colaborar na mudança necessária na forma de fazer política do DF. Não estou fazendo o discurso vazio da “nova política” do atual governo. Estou falando de transparência e independência para votar de acordo com os melhores interesses dos eleitores e de consciência limpa.

O senhor faz alguma aposta na sucessão do governador em 2018?

O atual governador vai gastar tudo o que diz não ter para Saúde, Segurança, Educação Transporte e outras áreas para tentar se reeleger, o que seria um desastre para o Distrito Federal. O cenário é incerto e depende ainda do arranjo partidário em nível nacional. Acho que Jofran Frejat, Izalci, Alírio, Fraga, o representante do meu partido Goudin, candidato do povo, são nomes viáveis, que têm feito interlocução com diversos segmentos e são capazes de articulação. Brasília precisa de uma liderança capaz de unir forças e não de um desagregador c

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