O verdadeiro palhaço de rua

O palhaço Mandioca Frita e a Trupe Raiz do Circo têm como meta de vida brincar com as crianças da forma mais verdadeira possível, mostrando o melhor do palhaço de rua para as pessoas

Por Iara Nóbrega | Fotos Karol Araújo

Júlio morava nas ruas do Rio de Janeiro. Não tinha a menor expectativa para a sua vida e sua única certeza era o sonho de ter uma família. Certo dia, ele foi assistir a uma apresentação do grupo artístico Carroça de Mamulengos e passou a vê-los todos os finais de semana, ajudando-os no que precisassem. Até que inconscientemente foi “adotado” pelo grupo, que é composto por uma família.

Foto Karol Araújo

Ele foi resgatado da rua e veio para Brasília com sua família adotiva. Depois de alguns anos vivendo aquela arte e aprendendo, o grupo foi embora para o Nordeste e ele não pôde ir, porque sua mulher iria ter um filho. “Quando eles foram embora, disseram: ‘Júlio, agora é a sua vez de caminhar. Você já tem filho para nascer’. Eu chorei muito, fiquei um mês chorando”, conta.

Era 1994, ano de Copa do Mundo, Júlio continuava a realizar o trabalho que o seu grupo adotivo fazia na Feira da Torre de TV: amarrava perna-de-pau, fazia oficinas de brinquedos e brincava com as crianças. A maioria dos artistas que o ajudavam eram filhos dos próprios barraqueiros da feira. Também o auxiliava sua mulher, mãe dos dois filhos mais velhos, que fez um figurino verde e amarelo em homenagem à Copa. Obviamente as cores chamaram a atenção dos que estavam presentes. “Quando eu me virei, percebi que estávamos dentro de uma roda. Foi a primeira vez que eu fiz uma roda sozinho. Depois disso, nunca mais parei de fazer roda na rua”, conta Júlio.

O nome artístico surgiu no teatro do bairro Laranjeiras, ainda no Rio de Janeiro, quando ele ia se apresentar com uma perna-de-pau. Não tinha um nome em mente; porém, quando foi apresentado no teatro, o chamaram de Mandioca Frita, sem nenhuma razão. O público amou e ele também.

Mandioca Frita | Foto Karol Araújo

Depois do sucesso na Feira da Torre, Júlio começou um trabalho – projeto do governo – no parque Ana Lídia, do Parque da Cidade. Ele achou o lugar interessante, pois havia uma grande quantidade de crianças e uma ótima energia familiar. Então, passou a ir aos domingos, mas, desta vez, cobrando. É onde ele abre sua roda até hoje.

Mandioca Frita participa, ainda, do grupo Artitude, dos irmãos Saúde, onde faz suas “palhaçadas” há quase 15 anos. Além desse grupo, Mandioca Frita fundou a Trupe Raiz do Circo, que é um grupo composto por ele e três filhos: Júlia, Davi e Luana.

Júlia e Davi sempre viam as apresentações do pai no Parque da Cidade. “Ele levava a gente para brincar lá. Meu irmão e eu ficávamos sentadinhos assistindo, ajudava em uma cena ou outra e eu fui me inserindo. Nem percebi e nem sei direito quando comecei”, diz Júlia. Ambos fizeram aulas de teatro com Abaetê Queiroz, filho e irmão de consideração. Naturalmente os dois entraram na arte do pai e se transformaram em Macaxeira e Aipim.

Júlia, a palhaça Macaxeira, criou o projeto As Desempregadas com uma amiga e já apresentou em diversos locais, inclusive na Casa Frida, onde aconteceu um workshop que seu pai deu para as mulheres da Casa. Ao mesmo tempo, ela está na Trupe Raiz do Circo com o pai e os irmãos.

Júlio César Macedo | Foto Karol Araújo

Davi, o palhaço Aipim, demorou para perceber que aquela brincadeira do pai era, de fato, sua profissão. “A independência de ser artista de rua é a melhor coisa. O que me motiva é a certeza de que eu posso viajar para onde eu quiser, porque onde tem gente, tem artista, e eu só preciso disso”, diz Davi.

Mandioca Frita se sente muito orgulhoso dos filhos que trabalham com outras categorias, mas, mesmo assim, seguem os passos do pai. “Eu sempre digo que nós somos palhaços verdadeiros, porque não basta só pintar o rosto, tem que ser verdadeiro. Eu sempre digo para mim: vou morrer muito feliz. Porque só eu sei o meu passado e eu vejo que a única coisa que estou passando para os meus filhos é a minha arte”, diz Mandioca Frita.

Deixe sua resposta