Os cabides da esperança

Projeto, que veio do continente africano, invadiu as ruas de Brasília e conquistou centenas de brasilienses

Por Fernanda Bastos

 

Escolher um produto em uma loja. Uma atividade considerada comum para muitos é rara na vida da maioria dos moradores de rua. Escolher é um momento importante, um resgate da dignidade e uma forma de empoderamento dessas pessoas. O projeto The Street Store DF chega a sua quarta edição e vem com esse propósito, de transformar um dia dos moradores de rua do Distrito Federal.

Tudo começou na Cidade do Cabo, na África da Sul, em janeiro de 2014, quando uma agência de publicidade planejou criar uma loja à céu aberto, com roupas, sapatos e outros acessórios para os os mais necessitados. A ideia foi tão boa que a comunidade local abraçou a causa e as contribuições superaram as expectativas. A empresa decidiu disponibilizar o material online para que essa ação ocorresse em outras partes do mundo. E assim chegou, na capital do Brasil, o projeto The Street Store Brasília.

A primeira edição ocorreu em maio de 2015, no Museu da República, e teve 550 beneficiados. Mais de 70 estudantes universitários se uniram para conseguir arrecadar seis mil peças de roupas. Uma das organizadoras do The Street Store Brasília, Malu Fialho, publicitária, acredita que projetos assim ajudam a despertar o comportamento mais humano dos jovens. “Cada projeto que nasce aqui estimula o olhar social dos brasilienses para os marginalizados e mostra que é possível fazer grandes trabalhos com pequenas ações”, disse.

Logo após a primeira edição do evento no Plano Piloto, surgiu o The Street Store DF, evento criado para as regiões periféricas do Distrito Federal, realizado pela primeira vez em dezembro de 2015, no Recanto das Emas. A programação da edição deste ano, assim como as anteriores, incluiu  consultas de assistência médica básica e jurídica, café da manhã, serviços de beleza e recreação infantil.

Segundo a organizadora do The Street Store DF, Ruth Duarte, o objetivo da edição deste ano foi superar a marca das últimas três, que arrecadaram cinco toneladas de roupas, calçados e acessórios e atenderam mais de mil pessoas. Com 14 pontos de coleta e 10 parceiros, a organizadora superou as centenas de peças doadas da última edição.“Com muito amor envolvido durante todo o projeto, muitos assistidos sairão com a dignidade resgatada’’, afirmou.

Cerca de 100 voluntários fazem do o trabalho de coleta, adequação das peças e exposição, a começar pela triagem das roupas, que é feita em etapas. A primeira é separar as peças por tamanhos e gêneros masculino e feminino. Em seguida, a equipe identifica peças que precisam ser lavadas e de algum reparo. As rasgadas e com estado de conservação ruim são descartadas.

 

Engajamento artístico

 

Integrantes da banda brasiliense Scalene, que se tornou conhecida na cena nacional ao participar de um programa de TV e ganhar o Grammy de 2016, apadrinharam o projeto e incentivaram o engajamento de pessoas na causa por meio de um financiamento coletivo no site Catarse — catarse.me/streetstoredf. A campanha que conseguiu doações de seis estados, totalizando de R$ 2.215, utilizou todo o valor arrecadado para investir na infraestrutura e na área de alimentação do evento.

Em um vídeo divulgado pela banda, Tomás Bertoni e Lucas Furtado disseram que é hora de aproveitar essa chance para ajudar a sociedade da melhor forma possível. “Atitudes sinceras, com o objetivo de ajudar quem mais precisa têm um poder enorme. É muito legal poder fazer parte disso”.

 

Um DF solidário

 

Várias são as causas que levaram essas pessoas a morarem nas ruas e passarem despercebidos pela sociedade. Por não terem casa, bens, família,elas vivem em situação de vulnerabilidade social e marginalização.

O projeto The Street Store não tem apoio político, nem financeiro de grandes empresas. As peças doadas são cuidadas e entregues com carinho a eles. É o momento de escolher uma roupa do seu agrado, de conversar com voluntários, um dia feito para se sentirem visíveis. É o caso da voluntária, Juliana Simões, que participou da ação realizada na Estrutural.

O que a marcou no projeto foi como a comunidade mais carente se sentiu acolhida ao receber dos voluntários conselhos e sugestões nas escolhas de roupa com um atendimento cordial. “É uma realidade diferente de apenas fazer uma doação porque tem mais interação e não trata as pessoas carentes com indiferença, já que elas tem os mesmos direitos de serem sempre bem atendidas e respeitadas por qualquer pessoa. É uma forma de socializar, integrar e interagir, incluindo e reinserindo essas pessoas nas relações sociais”, afirmou.

Os cabides marrons do The Street Store DF vêm ganhando cada vez mais espaço, conseguindo mudar realidades e promover trocas de sorrisos e histórias em todo o Distrito Federal.

 

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