Relato olímpico

Destaque na Rio 2016, o Brasil fico em quinto no quadro de medalhas. Faculdade Estácio faz debate e público presente ouve alegrias, tristezas e relatos de três representantes brasilienses nos jogos paralímpicos

Por Daniel Sabino

O Brasil é hoje, sem sombra de dúvidas, uma das grandes potências no cenário paraolímpico mundial, ficando entre as dez maiores forças. Os três atletas paraolímpicos brasilienses Antônio Delfino, Herivelton Ferreira, Shirlene Coelho e o treinador Domingos Guimarães contaram como foi participar do maior evento esportivo do planeta no debate Esporte Adaptado e Paraolímpico: Dialogando com Campeões, realizado pela Faculdade Estácio Brasília, no dia 25 de maio.

Conquistando quatro medalhas olímpicas, sendo ouro e prata no atletismo no Rio, a atleta Shirlene Coelho, contou como o clima no centro olímpico favoreceu o Brasil para alcançar tantas medalhas. “O clima era de festa, os cariocas são muito calorosos e receptivos. A torcida nos jogava pra frente”.

Natural de Corumbá-GO, Shirlene Coelho, que possui paralisia cerebral desde a gestação, participou de três edições dos Jogos Paralímpicos: Pequim 2008, Londres 2012 e Rio 2016. Em Londres 2012, Shirlene não deu chances para ninguém. Com direito a quebra de recorde mundial, a brasileira faturou seu primeiro ouro paraolímpico. Quatro anos depois, no Rio 2016, não só repetiu o título no lançamento do dardo como também faturou uma prata no lançamento do disco. O atletismo foi, de longe, a modalidade mais vencedora do Brasil nos Jogos Rio 2016. Foram 33 medalhas em 12 dias de competição. Um trabalho que veio crescendo a cada ciclo.

O esporte veio em forma de brincadeira, virou inspiração, superação dentro e fora das arenas. “Nunca pensei que poderia ser uma atleta. Hoje, o atletismo paraolímpico é conhecido, tem espaço e revela grandes talentos. Esse mundo paraolímpico é incrível! Eu comecei brincando, foi minha vida, mesmo hoje, depois me aposentei”, afirma. Apesar das medalhas Shirlene relata o esquecimento por parte das autoridades com o esporte adaptado. “Nós estamos longe de ter uma atenção por parte do governo, tanto o esporte em Brasília, quanto no Brasil” .

Melhor campanha em todos os tempos

A delegação brasileira superou suas marcas e quebrou recordes históricos nos Jogos Paraolímpicos Rio 2016. O destaque ficou por conta do total de medalhas conquistadas nas arenas cariocas: 72, o maior número de pódios do país em todas as edições, superando a marca anterior de 47, que havia sido estabelecida em Pequim. Em Sydney 2000, foram 9 pódios. Em Atenas 2004, 16. Em Pequim, 15. E em Londres, 18. No Rio, só de medalhas de prata foram 14, somadas aos 11 bronzes e 8 ouros.

Para Domingos Guimarães, a participação do Brasil nas paraolimpíadas foi satisfatório. “Estamos extremamente satisfeitos com a campanha nos Jogos. Foram ao todos 72 medalhas conquistadas. Foi a nossa melhor participação. A meta de terminar na quinta colocação geral não era a única. Um dos grandes objetivos era aumentar o número de medalhas no atletismo e de modo geral também”.

E mesmo com um desempenho crescente a cada ciclo olímpico, Guimarães não recebe o apoio necessário para o crescimento do esporte paraolímpico, tanto do governo federal quanto da iniciativa privada. “Para chegar até onde a Shirlene chegou é preciso muito treino. Aqui no nosso país, em especial em Brasília, não temos tanto apoio, nem um local especifico para treinar. Precisamos de estruturas melhores no Brasil, como por exemplo, o Centro Paraolímpico Brasileiro, em São Paulo. Infelizmente, só esse centro é pouco para o tamanho do país”, ressalta.

Outra modalidade esportiva que se destacou, em 2016, foi a Vela, com três classes de vela adaptada, disputada pela primeira vez no Rio. O melhor resultado ficou com a dupla da Skud18, Marinalva de Almeida e Bruno Landgraf, que após 11 regatas conquistou a oitava colocação.

A equipe da Sonar, composta por Antônio Marcio, Herivelton Ferreira e José Matias, fechou sua participação nos Jogos com um 11º lugar. E Nuno Rosa, que competiu na embarcação individual da 2.4 metros, ficou na 16ª posição. Destaque para Herivelton Ferreira, que é brasiliense, natural de Sobradinho, de acordo com ele, começou o esporte há dois anos depois de uma lesão, hoje é uma das promessas do esporte, no Brasil. “Eu entrei no esporte há mais ou menos dois anos. Por causa de uma lesão no ombro, eu comecei a fazer o tratamento no Hospital Sarah e, em uma consulta de rotina, me perguntaram seu não gostaria de fazer um esporte. Eu aceitei e hoje estou aqui”, conta.

Falta de incentivo

Assim como no atletismo, a Vela também passa por problemas. Os atletas fazem verdadeiros milagres para conseguir essas medalhas, treinando em estruturas capengas e pouco incentivo do Governo. Promessa feita no ano passado, o Bolsa Atleta nunca saiu do discurso. Para Herivelton, essa falta de incentivo reflete na grande evasão de atletas brasileiros em outros países. “Por causa da inadimplência do governo, muitos atletas acabam saindo do país e tem que se bancar lá fora”, dispara.

Outro problema no esporte adaptado é a dificuldade dos atletas em ter um lugar adequado para o treino e acesso a informação. Para os próximos anos, o panorama paraolímpico não é dos melhores. Os atletas brasilienses acreditam que a falta de interesse do governo e da iniciativa privada será a principal dificuldade em manter o bom rendimento dos atletas nos jogos e revelar novas jóias do esporte. “Os atletas paralímpicos são os mais dedicados. Só de participarem dos treinos, muitos já são excepcionais. Não é fácil ser esportista, mas com paciência e dedicação é possível chegar lá. Eu acredito que um dia teremos o reconhecimento necessário”, projeta Antônio Delfino.

 

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