Uma história de agressões

Da Redação

 

Barragem ilegal no Engenho Velho

Na esteira da crise de água no DF, a nossa reportagem decidiu investigar a situação hídrica no Entorno. O que encontramos, foi um cenário de deserto, quase de guerra. Terra devastada pelos quatro cantos do quadradinho. A condição dos cursos de água que, embora não façam parte do DF, têm influência sobre o nosso ecossistema, está se transformando em terra arrasada.

Urucuia, São Bartolomeu, Preto e Paracatu são rios importantíssimos para a nossa região e estão, quase todos, morrendo, estão sendo assassinados pelo descaso pela ganancia, pela imprevidência.

Nossa equipe fez uma análise do maior afluente do rio São Francisco, o Paracatu. Estão matando um rio que contribui com 26% da água do Velho Chico. O Paracatu está hoje, reduzido a um filete de água serpentando através de bancos de areia, com água pelas canelas, o outrora caudaloso Paracatu.

Córrego Engenho Velho depois da represa.

Córrego Rico, um dos afluentes do Paracatu, já estava destruído há mais de vinte anos, pela sanha de garimpeiros que cavaram buracos no seu leito e o entupiram de mercúrio, até mata-lo. Abaixo dele, o ribeirão Engenho Velho, há cinco anos atrás, era o grande berçário dos peixes da bacia, ali procriavam pacus, piaus, dourados, surubins, hoje, ele não existe mais. Foi represado por proprietários rurais que privatizaram totalmente as suas águas. São quatro ou cinco barragens, a maioria sem autorização ou captando mais do que o autorizado.

Nenhum proprietário rural paga um centavo pela água que retira dali. O que antes era um bem público, hoje é propriedade particular.

Ainda no sentido da foz do Paracatu, existe o ribeirão Entre Ribeiros, mas o que era córrego virou estrada. A captação de água ali chegou à beira da insanidade. Os pivôs centrais se sucedem estão quase todos parados por falta de água para irrigar qualquer plantação. Em nome do agronegócio, estão destruindo o próprio agronegócio.

De quem é a responsabilidade

 

Ribeirão Entre Ribeiros

A impressão que fica é de que o Paracatu é um rio sem dono. O poder público até existe, porém, não manda ou não quer mandar. Há um comitê de bacias, mas a maioria dos seus integrantes é de proprietários rurais que veem o rio como propriedade, para tirar dele a água que quiserem, sem pagar um centavo aos cofres públicos.

Os integrantes do Comitê dizem que as autorizações são feitas em Belo Horizonte e que eles não têm poder de sustá-las. Há um Ministério Público Ambiental que recebe denúncias, manda apura-las e fica por aí. Só no ribeirão Engenho Velho há quatro fazendas respondendo por infração ambiental: Floramil, Estrela, Engenho Velho e Delta. Somadas, as suas multas chegaram a pouco mais de R$ 250 mil, contudo, nem um centavo foi pago.

A Polícia Militar Ambiental não tem viaturas, gasolina, nem efetivo. Dessa forma, os criminosos ficam impunes. Um representante da sociedade civil no Comitê de Bacias de Paracatu é o Movimento Verde, comandado pelo biólogo, Antônio Eustáquio, o Tonhão. Militante antigo em defesa do rio, tem feito inúmeras postagens nas redes sociais e, recentemente, produziu um relatório para o próprio Comitê, lamentando a situação do rio, como se não soubesse dela há tempos. Afinal, ele é o Secretário do Comitê de Bacia.

A falta de escrúpulos e a ganancia, além de estarem assassinando os rios da região, levaram a cidade ao ponto inacreditável de não ter água potável para consumo humano. Os paracatuenses não tem água de beber. Compram água da vizinha João Pinheiro, a cem quilômetros de distância. E o pior é que os poços artesianos – também cavados, em sua maioria, pelos irrigantes – estão a cada dia mais fundos, o que mostra que o lençol freático está baixo demais.

 

 

Há  salvação para o rio Paracatu?

 

O regime de chuvas na região do Noroeste Mineiro é bastante regular, com uma média de precipitação anual entre 1.200 mm e 1.300 mm. Ano passado, não chegou a 900mm. As previsões para 2018 não são otimistas, dando por certo de que a região receberá menos chuva do que a média histórica.

O cenário é preocupante. Em curto prazo,  a economia da região estará destroçada pela falta de água. O município de Paracatu, hoje a maior concentração de pivôs de irrigação do Brasil, estará condenado à ruina. Ironia, o agronegócio matará o agronegócio, por excesso de ganancia e por falta de fiscalização, tudo sob os olhares indulgentes das autoridades locais e estaduais.

Sem uma redução drástica do volume captado, sem a recuperação das nascentes e das veredas, o Paracatu estará condenado, o rio morrerá. E com ele, morrerá parte da cidade de Paracatu, parte da história das ‘Geraes’ e do Brasil.

1 comment

  1. Ana Schettini 26 outubro, 2017 at 15:34 Responder

    Meu sentimento é um misto de tristeza, indignação e perplexidade. Os produtores rurais, em sua maioria, moram em Paracatu, tem suas terras e famílias aqui, então, na minha lógica a atitude deve ser, trabalhar, obter lucros, cuidar, preservar, afinal, o rio e a terra que me alimentam, merecem o meu respeito. Mas há uma outra questão que não pode ser ser negligenciada, esquecida: A MINERAÇÃO. Os córregos e nascentes que secaram, não um ou dois. São muitos! Os poços que estão sendo perfurados a profundidades absurdas. Os meios de comunicação da cidade e região tem falado somente do agronegócio. Porque ninguém diz nada sobre a mineração? Todos os artigos que leio, matérias que assisto, falam somente do agronegócio. Não saio e nem estou em defesa de um ou outro, não precisam. É em minha defesa, em nossa defesa, da terra, da cidade, das pessoas, dos rios. Neste passo, o que será da “Atenas Mineira” daqui a 05, 10 ou 20 anos?

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